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Hoje falo de marcas. Sinais que construo em decorrência das experiências. Marco os que consigo identificar, seja alguém como chato, outro como simpático. Aquela pode ser extravagante enquanto outra, um ponto de interrogação. São marcas, são sinais… Identificadores de uma experiência particular; coisas que, no final do dia, me dizem mais que o nome ou a popularidade das pessoas que chego a conhecer.

Mas o que provoca estas marcas? Quais suas causas? São elas justas ou não? Importa pensar sobre isso? Que ganho? Perco?

Estas marcas parecem ser desenhadas aos poucos, traço a traço, dia após dia… como tatuagens. Tatuagens são feitas para simbolizar, no corpo, uma experiência do espírito: a dor de uma perda marcada para sempre, a lembrança de uma cicatriz escondida, a esperança de uma vida nova, a passagem de uma perspectiva para outra etc. Momentos de transição, de choque, de impacto, de espanto.

Se tudo fosse tranquilo, se nada abalasse meus dias… que monotonia! Se não me espantasse com a morte, tudo seria serenamente repetitivo. Evitando o sentir, como aprenderia a pensar? O choque vem para me provocar, para me fazer igual a qualquer outro como ser sensível ao mundo, marcado por minhas escolhas. Há como ser indiferente a isto?

De uma forma ou de outra, percebo uma beleza peculiar à dor, pouco sensível aos extremamente alegres ou divertidos, pouco perceptível aos míopes ou sonhadores extremos, pouco evidente aos entretidos e alienados por opção. E só através da aceitação das perdas foi que desenvolvi tolerância às dores, só então que consegui pensar sobre esta ideia tomada como um mal qualquer, só então que evitei me divertir para não sentir o que me incomodava.

A dor que rompe com a rotina deixa suas impressões no espírito. Querendo evit-ala, evito sentí-la mas não conseguiria viver feliz com um constante medo de sofrer, seria para mim mais torturante que as dores eventuais, das dores que me ensinam, me fortalecem, me põem à prova e que me tatua, me marca.

Aceitando estas marcas, transformo o desejo imperativo de vencer em um conceito colaborativo de compreender. A mudança presente na natureza me serve como exemplo de que não dá pra ficar sempre do mesmo jeito.

Tatuagens

 
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Publicado por em 8 junho, 2012 em Aprendizado, General, Vida

 

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Diário de bordo

 

 

 

 

 

 

 

É tarde e me chegam notícias de tuas saudades.

Li todas as palavras, foste breve. Me ensinaram a aprender, desde então não consigo evitar. Gostaria de saber sobre tuas saudades, que sensações suscitam estas lembranças. Pois que das minhas quedo todos os dias… não de tristeza, mas de esperança. Se ao menos meus saudosos soubessem.

Quê? Mas, eu já os disse… falei-lhes inclusive daquele abismo intransponível, do quanto é difícil expressar um sentimento depois que ele passa. Corro atrás das palavras, mas tudo o que quero é saber se ao menos o pouco que foi dito foi compreendido. Me fazem falta aquelas conversas rendidas, sem armas. Aquelas onde o preconceito ainda não havia mostrado suas rugas. As mesmas que muitas vezes compartilhei contigo e só depois, despercebido, despertei de fantasias vívidas e te encontrei como testemunha. Onde estive? Que disse? Falei demais? Quanto tempo passou?

Mas que alívio! A liberdade de dizer acompanhado o que sozinho tantas vezes repetimos sem saber. Ter por perto aquele ouvido emprestado que nada julga, mas guarda, tenta entender, que constrói junto um significado compartilhado e que depois leva consigo a metade deixando comigo de novo a saudade. Sinto a necessidade de falar, mas não disponho de teus ouvidos, então tenta me ler e me explicar escrevendo o que depois dizendo vamos experimentar.

 

 
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Publicado por em 5 junho, 2012 em General

 

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Prefácio à Leitura

Este é um louvor ao livro e à leitura, e o que louva o escritor escrevendo, louva o leitor lendo. Não se trata aqui de um louvor a um livro em específico tampouco a um leitor em especial, mas de ambos em potencial. Louvando a leitura louvo também sua guardiã perpétua e indissociável: a memória de seus leitores bem como a memória e os seus leitores. Memória que contribuiu e contribui para a expressão e compreensão de tantas filosofias, religiões e culturas que em seus escritos, seus livros, suas letras, guardam seus maiores tesouros. Tesouro este manifesto em mitos, fábulas, contos, cantos, poesias e em toda expressão simbólica preservada em significados construídos pela humanidade para tentar expressar seu tempo e dar-lhe sentido.

Não somos nós estes seres que dão nomes às coisas? E o que é a escrita senão a tentativa de capturar este sentido das coisas, de forma a preservá-lo do esquecimento? O sentido capturado pela leitura é o fruto deste livro do mundo.

É na leitura onde tantos encontram o prazer do intelecto. O livro é um baú cheio de palavras, e estas os frutos de reflexões. Variados frutos de refinado sabor preservado para sutis paladares. E a chave para abrir este baú e saborear suas delícias precisa estar ao alcance do leitor, desenvolvendo-se através do ato e do hábito da leitura. O livro deve explicar a si próprio, conter o seu próprio manual ou as referências à sua própria compreensão, explicação e justificativa. A leitura que exerce prazer é a que estimula o espírito, o sentido a que ela é direcionada.

Mas para desta riqueza se apropriar, para dela usufruir, faz-se necessário um aprendizado específico, um hábito a ser desenvolvido e cultivado, mantido e exercitado. Para se colher deste tesouro que é a leitura, faz-se imperativo saber ler, uma vez que ler, assim como os verbos sofrer ou amar, não suporta imperativos. E para ler não basta traduzir símbolos em sons ou memorizar vastos e enciclopédicos conteúdos.

Talvez ler possa ser uma destas coisas que preservam em seu conceito uma lacuna, algum mistério particular, da qual nunca podemos dizer tudo para que sempre mais seja dito, para que sempre mais seja refletido e escrito. Pode aparecer como uma armadilha para o olhar do leitor construída pelo escritor, este outro tantas vezes distante, estranho e pouco conhecido. Uma aventura da imaginação que pode guiar a imaginação entre labirintos e profundezas, que pode suscitar tanto humores e temores, simpatia ou apatia, afinidade ou rejeição, mas nunca indiferença. A memória que se preserva das letras desperta em sonhos. Encanta e provoca o espírito alimentando-o com sua matéria prima, o conteúdo da imaginação e da memória: as ideias.

Com isso retornamos ao início, lembrando que quando o leitor faz uso de boa-fé na tarefa de colher o sentido do escrito é que se tem o uso da inteligência. Inteligência que funciona em cooperação com os conteúdos da memória. Memória esta que possui a habilidade de preservar palavras, recolher e construir sentidos a partir de escritos com os quais estabelece um contato. Capaz, portanto, de estabelecer um diálogo, uma relação com o texto e seus conteúdos, uma apropriação de seu espírito, um acesso ao outro, ao diferente, à alteridade.

A leitura é um tesouro da cultura, e ler é uma experiência transformadora, um transitar no rio “heraclitiano”.  Para o solitário é companhia, para o escritor é terapia. É um predicado útil e acessível a todas as idades. Lemos para aprender, para orar, para cantar, para contar. Ler é um verbo que conjuga a possibilidade de colher de palavras seus sonhos, suas ideias e identidades, sua essência. Exercício que enriquece e fortalece a memória e facilita a expressão do indivíduo. É uma fonte que nutre o vocabulário do leitor; é uma prova e um alimento. Quão auspicioso tal presente!  Tesouro que muda a quem o constrói e a quem o interpreta, envolvendo num só momento diferentes sujeitos, perspectivas, espaços e tempos. Riqueza esta da leitura que é tanto formadora quanto transformadora, fazendo de tantos penitentes repentistas de suas vivas poesias. Tesouro tantas vezes escondido, exilado, queimado, esquecido, velado, proibido. Riqueza tantas vezes menosprezada, repelida, marginalizada, condenada, desvirtuada, estigmatizada. Ausência tantas vezes alienante desta fortuna tantas vezes libertadora. Haveria um só motivo justo para se proibir a leitura? Pode-se dar ênfase suficiente à sua necessidade na formação dos valores e de pessoas responsáveis e éticas? Podemos privar alguém de beber da água que afogou a alguns? Até para que se justifiquem as cautelas relativas à prática da leitura são necessárias palavras para compreender este porquê.

Tal riqueza espiritual proporcionada pela leitura nos é amplamente disponível. Está à disposição dos que desejam entender melhor a si mesmos, ganhar sensibilidade e cultura, aprender a pensar e exercitar a inteligência. É neste ato de ler que se manifesta um exercício voluntário. É uma via de mão dupla, um movimento de intercâmbio, uma abertura ao outro. Neste apoio mútuo está um dos pilares que contribui em grande parte para o desenvolvimento da confiança em si e do respeito pelo diferente.

O maior presente de um livro é um leitor prudente, fiel aos seus conteúdos. E ganha também o leitor prudente com suas leituras através dos seus diálogos com as letras que interpreta e dá significado. Este significado, este sentido da leitura solicita um encontro de duas artes: a do leitor através da leitura e a do escritor através da escrita.

Mas que leitor recebeu um manual de instruções para o aprendizado da leitura? Quem nos deixou tais notas esclarecedoras aos iniciantes? Só se aprende a ler lendo, e a leitura não é um hábito que se desenvolva sem exercício e paciência. Nos escritos estão depositadas ideias e com isso o leitor é advertido: elas são fruto de um laborioso trabalho de querer expressar aquilo que se entende ou tenta-se entender. Por um lado pressupõe-se um escritor que, como depositário de suas ideias, revela o conteúdo de sua reflexão, os caminhos de seu pensamento, estes que não podem ser isolados do seu contexto social, histórico e cultural. Por outro lado está o leitor, que se esforça à luz de uma realidade distinta, por dar expressão ao que é compreendido, por entender o que é dito, por capturar o seu sentido sem distorções, preconceitos ou equívocos grosseiros. E o que se tem como produto da delicada tarefa de interpretar as palavras – seja aprovando, seja refutando – e guardá-las na memória torna-se propriedade do leitor por uma escolha de sua vontade, expressão de sua liberdade, opção de sua individualidade e responsabilidade intransferível. Expressão e interpretação que a leitura provoca nos olhares que se propõem a realizá-la com seriedade e atenção.

O conteúdo do livro pede por compreensão, mas esta compreensão não pode ser apreendida de relance. A leitura requer um passeio e repouso do olhar, um abrir de asas e voar da imaginação. Todo escrito é um exercício da reflexão, toda leitura um exercício da imaginação. Mas para que o conteúdo da obra possa ser compreendido com clareza, faz-se necessária a participação da reflexão do leitor, numa cooperação entre memória e inteligência. Leitor este que também merece, através do louvor à leitura, ser também louvado como sujeito que atribui a este exercício seu valor renovado e necessário através da persistência no desenvolvimento do hábito da leitura cuidadosa e preservação dos seus conteúdos como guardião da memória.

O sentido da vida, que em diferentes tempos foi procurado, é evocado ao presente nas histórias contadas, lendas lembradas, letras borradas e páginas amareladas de todos os diferentes idiomas do mais recente ao mais remoto passado. Muitos destes escritos cuidadosamente lapidados para seus contemporâneos em diferentes realidades. Tanto que já sabemos hoje da necessidade de reaprender a ler o que o passado nos deixou sem cometer indevidos anacronismos, sem julgar o passado pelas experiências do presente. Aprender a extrair da leitura seu espírito, e com este alimento aprender a reconstruir ativamente o sentido da vida frente às questões do presente. Sendo assim esse sentido pode ganhar um valor autêntico e próprio, autônomo e fundamentado, fruto de escolhas refletidas que expõem a condição do indivíduo no tempo e espaço que foi feito para ele e para o qual ele foi feito. Nisto se desenvolve uma consciência individual que nasce da essência
do exercício da cidadania para com a sociedade da qual se faz parte e na qual se faz necessária sua participação.

Os livros também contribuem na ampliação das potenciais escolhas dos seus leitores. Oferecem, através de sua multiplicidade de perspectivas, dessa cornucópia de saberes acumulados, um vasto espectro de opções. E quem tem mais opções pode também desenvolver mais distinções e associações, mais elos entre diferentes saberes, pode enfim adaptar-se melhor uma vez que reflete sobre as possibilidades que antevê, mesmo que nem todas consigam satisfazer suas dúvidas mais prementes ou importantes. É abandonando a postura de vítima e colocando o destino na mão de quem escolhe que se responsabiliza o autor de sua escolha. Uma escolha pode ser feita – ou negligenciada – por medo, mas também pode ser feita consciente, paciente, refletida e prudentemente, ou seja, por amor.

É no conteúdo dos livros que encontramos grande parte dos fundamentos dos saberes humanos, suas experiências cristalizadas. Além de seu valor social, cultural e espiritual, a linguagem escrita também ganhou valor sobre a linguagem falada. A leitura é imprescindível ao estudante e não existe estudo sério sem uma leitura atenta e reflexiva. Ler, distintamente dos outros meios midiáticos, pede à inteligência para lidar sem imagens, mas não a impede de construí-las e de, com isto, desenvolver o aprendizado necessário à manifestação da subjetividade do indivíduo diante da realidade na qual se insere e da qual também é constantemente solicitado a participar.

Podemos concluir perguntando se um exercício que fortalece e enriquece culturalmente, estimula a criatividade, ensina a problematização, enriquece a leitura de mundo além de oferecer opções a quem dele constitui hábito poderia não se tratar de algo digno? O intercâmbio do livro como expressão da memória se dá na apropriação deste conhecimento por parte do leitor. Leitor este tomado em plena responsabilidade como agente de sua vida, guardião da memória e arquiteto responsável por seus projetos, pois quem aprende a ler também aprende a escolher. E em uma sociedade igualitária este aprendizado da leitura como acesso à autonomia intelectual jamais poderia se tratar de um aprendizado a ser negligenciado na formação de cidadãos, mas ser pedra-de-toque na construção da consciência e no exercício da cidadania.

 
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Publicado por em 31 outubro, 2011 em Cotidiano, Pensamentos

 

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Sonho 1/2

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olho, olho, nada vejo,

tenso, penso que esqueço,

corro, volto pro começo,

calmo, lembro, logo adormeço.

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Publicado por em 19 outubro, 2011 em General

 

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1 Sonho

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Um silêncio velado

     um espelho quebrado

     dos retratos guardados

     tristes folhas borradas.

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Publicado por em 18 outubro, 2011 em Cotidiano, General, Pensamentos

 

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Céu


No início do dia começo a distinguir entre o claro e o escuro,
vindo desse desvelar da luz o que vejo pela manhã;
o que a tarde me reserva só no seu momento se revela,
instantes de diferentes cores, movimentos e mudanças;
e do véu escuro erguido sobre o céu surge a noite,
enfeitada de brilhantes adornos para marcar sua passagem.
 
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Publicado por em 7 outubro, 2011 em Cotidiano, General, Vida

 

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Aprendendo a me perder

 

Alguém me disse o que achou
e eu pensei que era novidade
quando a história acabou
despertei para outra realidade

Como pode algo assim
que tantas vezes vi igual
mudar grande parte de mim
me fazendo sentir anormal?

Tantos eventos que me transformam
me deslocam, me provocam;
rebatem, retocam, cortam, matam,
complicam, explicam, modificam, ressuscitam

Não sei explicar tudo do que percebo
só sei desenhar daquilo que aprendo
mas quando preciso de novo me lembro
que só me encontro depois que me perco

 
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Publicado por em 30 setembro, 2011 em Aprendizado, Cotidiano, General

 

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