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Epicuro

27 jun

letter

Carta sobre a felicidade
(a Meneceu)

Epicuro envia suas saudações a Meneceu

Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo  depois  de  velho,  porque  ninguém  jamais  é  demasiado  jovem  ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se  à  filosofia  ainda  não  chegou,  ou  que  ela  já  passou,  é  como  se dissesse que ainda não chegou ou que  já passou a hora de  ser  feliz. Desse modo,  a  filosofia  é  útil  tanto  ao  jovem  quanto  ao  velho:  para  quem  está envelhecendo sentir-se  rejuvenescer  através da  grata  recordação  das  coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que  estão por  vir;  é  necessário,  portanto,  cuidar  das  coisas  que  trazem  a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para  alcançá-la. Pratica  e  cultiva  então  aqueles  ensinamentos  que  sempre  te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado,  como  sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada  que  seja  incompatível  com  a  sua  imortalidade,  nem  inadequado  à  sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade.

Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses,  ímpio não é quem  rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos  dessa maioria. Com  efeito,  os  juízos  do  povo  a  respeito  dos  deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que  eles  causam  os maiores malefícios  aos maus  e  os maiores  benefícios aos bons. Irmanados pelas suas   próprias   virtudes,   eles   só   aceitam   a convivência  com  os  seus  semelhantes  e  consideram  estranho  tudo  que  seja diferente deles.


Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo  mal  residem  nas  sensações,  e  a  morte  é  justamente  a  privação  das sensações.  A  consciência  clara  de  que  a  morte  não  significa  nada  para  nós proporciona  a  fruição  da  vida  efémera,  sem  querer  acrescentar-lhe  tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.


Não existe nada de terrível na vida para cjuem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o  aflige  a  própria  espera:  aquilo  que  não  nos  perturba  quando  presente  não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao  contrário,  quando  a  morte  está  presente,  nós  é  que  não  estamos.  A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela  não  existe,  ao  passo  que  estes  não  estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora  foge da morte como se  fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal.

Assim  como opta  pela  comida mais  saborosa  e  não  pela mais  abundante,  do mesmo modo  ele  colhe  os  doces  frutos  de  um  tempo  bem  vivido, ainda que breve.

Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se  deve  ter  exatamente  o  mesmo  cuidado  em  honestamente  viver  e  em honestamente  morrer.  Mas  pior  ainda  é  aquele  que  diz:  bom  seria  não  ter nascido, mas, uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades.

Se ele diz isso com plena convicção, por que não se vai desta vida? Pois é livre para  fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi um frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem.

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem  totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse  por  vir  com  toda  a  certeza,  nem  nos  desesperarmos  como  se  não estivesse por vir jamais.

Consideremos   também   que,    dentre   os desejos, há os que são naturais e  os  que  são  inúteis;  dentre  os  naturais,  há  uns  que  são  necessários e outros,  apenas  naturais;  dentre  os  necessários,  há  alguns  que  são fundamentais para  a  felicidade,   outros,   para o  bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos  leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do  espírito,  visto  que  esta  é  a  finalidade  da  vida  feliz:  em  razão  desse  fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.

Uma vez que  tenhamos atingido esse estado,  toda  a  tempestade  da  alma  se aplaca,  e  o  ser vivo,  não  tendo  que  ir  em  busca  de  algo  que  lhe  falta,  nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir.

É  por  essa  razão que afirmamos que o prazer é o  início e o  fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano,  em  razão  dele  praticamos  toda  escolha  e  toda  recusa,  e  a  ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.

Embora  o  prazer  seja  nosso  bem  primeiro  e  inato,  nem  por  isso  escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando  deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua  própria natureza; não obstante  isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo,  toda dor é um mal, mas  nem  todas  devem  ser  sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar  todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem.

Consideramos ainda a auto-suficiência um grande  bem; não  que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos  com esse pouco caso não tenhamos  o  muito,  honestamente  convencidos  de  que  desfrutam  melhor  a abundância  os  que menos  dependem  dela;  tudo  o  que  é  natural  é  fácil  de conseguir; difícil é tudo o que é inútil.

Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as  iguarias mais requintadas,  desde  que  se  remova  a  dor  provocada  pela  falta:  pão  e  água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita.

Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte.

Quando  então  dizemos  que  o  fim  último  é  o  prazer,  não  nos  referimos  aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com  ele,  ou  o  interpretam  erroneamente, mas  ao  prazer  que  é  ausência  de sofrimentos  físicos  e  de  perturbações  da  alma.  Não  são,  pois, bebidas  nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de urna mesa farta que tomam   doce   uma   vida,       mas     um     exame cuidadoso  que  investigue  as  causas  de  toda escolha  e  de  toda  rejeição  e  que  remova  as  opiniões      falsas      em   virtude     das     quais     uma  imensa  perturbação  toma  conta dos espíritos.

De  todas  essas  coisas,  a  prudência  é  o  princípio  e  o  supremo  bem,  razão pela  qual  ela  é  mais  preciosa  do  que  a  própria  filosofia;  é  dela  que originaram  todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida  feliz  sem  prudência,      beleza    e    justiça,      e      que      não      existe prudência,   beleza   e   justiça   sem   felicidade. Porque  as  virtudes  estão  intimamente  ligadas  à  felicidade,  e  a  felicidade  é inseparável delas.

Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um  juízo  reverente  acerca  dos  deuses,  que  se  comporta  de  modo absolutamente  indiferente perante a morte, que bem compreende a  finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de  obter,  e  que  o mal  supremo  ou  dura  pouco,  ou  só  nos  causa  sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que  as  coisas  acontecem  ou  por  necessidade,  ou  por  acaso,  ou  por  vontade nossa; e que a necessidade é  incoercível, o acaso,  instável, enquanto nossa vontade  é livre,   razão  pela qual  nos acompanhara a censura e o louvor?

Mais  vale  aceitar  o  mito  dos  deuses,  do  que  ser  escravo  do  desino  dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses através das homenagens que  lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável.

Entendendo  que  a  sorte  não  é  uma  divindade,  como  a  maioria  das  pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo  incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida  feliz, mas, sim, que dela pode surgir o  início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a  ser afortunado e  tolo; na prática, é melhor que um bom projeto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projeto mau.

Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado,  quer dormindo, mas viverás  como um deus entre os homens. Porque  não  se  assemelha  absolutamente  a  um  mortal  o  homem  que  vive entre bens imortais.


Tradução baseada na edição de Arrighetti. Epicuro. Opere. Torino, 1973.
©2007 CEFA e Portal Brasileiro da Filosofia

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Publicado por em 27 junho, 2009 em Aprendizado, Cotidiano, Pensamentos, Vida

 

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