RSS

Cornucópia

24 jun

Cornucopia

Falando do possível ou do impossível, cito um exemplo que atraiu minha atenção: Uma discussão sobre a forma gramatical que um texto assume. Digamos de outra forma: a disposição dos símbolos em um espaço visível e supostamente inteligível.

Remeto ao que ocorre, segundo relatos, em sessões hipnóticas: é possível induzir uma pessoa que já comeu cebola ou maçã a sentir os sabores invertidos (o da fruta no legume, o do legume na fruta), mas não é possível fazê-la sentir o sabor do que jamais provou. Se isto for possível, quero convocar todos os hipnotizadores do planeta para fazerem os famintos da África sentirem a cornucópia de sabores do mundo inteiro! Que experiência isto seria, não?

Nosso organismo não “inventa” sabores. O que acontece é a identificação do sabor, o reconhecimento. Se eu não gosto de feijoada porque é uma comida com aparência estranha, minha alimentação me privaria de provar tudo o que é desagradável ao olhar. Imagine então se para gostarmos de uma cor precisássemos gostar também do sabor? É olhar para a uva, sentir vontade de comer uma uva e ainda ter uma expectativa sobre o sabor que vai sentir. É pensar “limão” e salivar. É escolher lembrar aquele sabor. Uma mensagem completa: a boca se abre, ou não. Ora, quem não sabe distinguir, dentre os que já provaram uvas suficientes, entre uma uva deliciosa e uma não tão saborosa? Quantos jamais sentiram vontade  de levar um limão novamente à boca, mesmo sabendo do sabor azedo que vai sentir? E o mesmo não acontece com o gás do refrigerante? Como se uma sensação diferente provocada em um órgão interno… Ou quem sabe um grande gole de água gelada, a sentir resfriar por dentro. Estranhamente interessante. Mesmo assim, o sabor mais saboroso não parece ser sempre aquele que se encaixa no conceito de uma “preferência” entre os melhores sabores? “Também gosto disso, mas prefiro aquilo.” “Gostaria disto, mas me satisfaço com aquilo.” Se gosto pessoal é relativo, que podemos dizer do gosto de cada um escrever como bem entender? Deixa de ser pessoal? Sou-me menos pelos meus erros? Sou-me mais pelos acertos? Quem me mede e sob que referências? Preciso das qualidades catalogadas antes que eu tomasse conhecimento das qualidades que preciso? Embora apenas aquele que escreveu possa entender tudo o que envolvia seu pensamento, o objetivo não parece ser o de fazer os outros entenderem o que se escreve, mas tão somente o de expressar livremente o arriscado salto entre as palavras e a compreensão que se faz destas. A identidade se dá ao final, é preciso usar as “papilas oculares”. Sobre isto menciono resultado de uma leitura tal qual alguns pensamentos escritos remetem, como uma sensação distinta, como aquela da água resfriando por dentro, ou da uva que cria a expectativa do sabor. Tente descrever, para quem jamais sentiu o gosto do limão, como isso poderia se tornar inteligível. O conteúdo de um texto, algo que não está na capa, nem na opinião de quem leu, nem na propaganda, nem no resultado dos Best-sellers da semana. Não é algo que alguém pode fazer por você. Apenas você pode interpretar, tanto quanto possível, aquilo a que se dispõe compreender, “absolutamente” ou “parcialmente”.  O que fica. O que nós lembramos, como o sabor do limão, impossível de negar quando sentimos salivar. O que fica guardado sem precisar de um segundo aviso para ser lembrado. É o que deixam alguns textos, esta participação nos eventos descritos através da ligação entre o texto e a fantasia criativa de quem lê. É o sabor que cada palavra provoca em um o que faz a diferença entre quem lê e quem escreve. Alguns falam “Amigo” como se estivessem ausentes, outros falam “colega” como se ninguém mais estivesse presente. Afinal, qual o valor que precisa ser demonstrado, quando palavras não bastam para traduzir a singeleza da mais fugidia das sensações? A experiência das sensações. E não existe catálogo que traduza como cada um sente.

Anúncios
 
Deixe um comentário

Publicado por em 24 junho, 2009 em Cotidiano, General, Vida

 

Tags: , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: