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Epicuro

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Carta sobre a felicidade
(a Meneceu)

Epicuro envia suas saudações a Meneceu

Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo  depois  de  velho,  porque  ninguém  jamais  é  demasiado  jovem  ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se  à  filosofia  ainda  não  chegou,  ou  que  ela  já  passou,  é  como  se dissesse que ainda não chegou ou que  já passou a hora de  ser  feliz. Desse modo,  a  filosofia  é  útil  tanto  ao  jovem  quanto  ao  velho:  para  quem  está envelhecendo sentir-se  rejuvenescer  através da  grata  recordação  das  coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que  estão por  vir;  é  necessário,  portanto,  cuidar  das  coisas  que  trazem  a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para  alcançá-la. Pratica  e  cultiva  então  aqueles  ensinamentos  que  sempre  te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado,  como  sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada  que  seja  incompatível  com  a  sua  imortalidade,  nem  inadequado  à  sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade.

Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses,  ímpio não é quem  rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos  dessa maioria. Com  efeito,  os  juízos  do  povo  a  respeito  dos  deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que  eles  causam  os maiores malefícios  aos maus  e  os maiores  benefícios aos bons. Irmanados pelas suas   próprias   virtudes,   eles   só   aceitam   a convivência  com  os  seus  semelhantes  e  consideram  estranho  tudo  que  seja diferente deles.

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Cornucópia

Cornucopia

Falando do possível ou do impossível, cito um exemplo que atraiu minha atenção: Uma discussão sobre a forma gramatical que um texto assume. Digamos de outra forma: a disposição dos símbolos em um espaço visível e supostamente inteligível.

Remeto ao que ocorre, segundo relatos, em sessões hipnóticas: é possível induzir uma pessoa que já comeu cebola ou maçã a sentir os sabores invertidos (o da fruta no legume, o do legume na fruta), mas não é possível fazê-la sentir o sabor do que jamais provou. Se isto for possível, quero convocar todos os hipnotizadores do planeta para fazerem os famintos da África sentirem a cornucópia de sabores do mundo inteiro! Que experiência isto seria, não?

Nosso organismo não “inventa” sabores. O que acontece é a identificação do sabor, o reconhecimento. Se eu não gosto de feijoada porque é uma comida com aparência estranha, minha alimentação me privaria de provar tudo o que é desagradável ao olhar. Imagine então se para gostarmos de uma cor precisássemos gostar também do sabor? É olhar para a uva, sentir vontade de comer uma uva e ainda ter uma expectativa sobre o sabor que vai sentir. É pensar “limão” e salivar. É escolher lembrar aquele sabor. Uma mensagem completa: a boca se abre, ou não. Ora, quem não sabe distinguir, dentre os que já provaram uvas suficientes, entre uma uva deliciosa e uma não tão saborosa? Quantos jamais sentiram vontade  de levar um limão novamente à boca, mesmo sabendo do sabor azedo que vai sentir? E o mesmo não acontece com o gás do refrigerante? Como se uma sensação diferente provocada em um órgão interno… Ou quem sabe um grande gole de água gelada, a sentir resfriar por dentro. Estranhamente interessante. Mesmo assim, o sabor mais saboroso não parece ser sempre aquele que se encaixa no conceito de uma “preferência” entre os melhores sabores? “Também gosto disso, mas prefiro aquilo.” “Gostaria disto, mas me satisfaço com aquilo.” Se gosto pessoal é relativo, que podemos dizer do gosto de cada um escrever como bem entender? Deixa de ser pessoal? Sou-me menos pelos meus erros? Sou-me mais pelos acertos? Quem me mede e sob que referências? Preciso das qualidades catalogadas antes que eu tomasse conhecimento das qualidades que preciso? Embora apenas aquele que escreveu possa entender tudo o que envolvia seu pensamento, o objetivo não parece ser o de fazer os outros entenderem o que se escreve, mas tão somente o de expressar livremente o arriscado salto entre as palavras e a compreensão que se faz destas. A identidade se dá ao final, é preciso usar as “papilas oculares”. Sobre isto menciono resultado de uma leitura tal qual alguns pensamentos escritos remetem, como uma sensação distinta, como aquela da água resfriando por dentro, ou da uva que cria a expectativa do sabor. Tente descrever, para quem jamais sentiu o gosto do limão, como isso poderia se tornar inteligível. O conteúdo de um texto, algo que não está na capa, nem na opinião de quem leu, nem na propaganda, nem no resultado dos Best-sellers da semana. Não é algo que alguém pode fazer por você. Apenas você pode interpretar, tanto quanto possível, aquilo a que se dispõe compreender, “absolutamente” ou “parcialmente”.  O que fica. O que nós lembramos, como o sabor do limão, impossível de negar quando sentimos salivar. O que fica guardado sem precisar de um segundo aviso para ser lembrado. É o que deixam alguns textos, esta participação nos eventos descritos através da ligação entre o texto e a fantasia criativa de quem lê. É o sabor que cada palavra provoca em um o que faz a diferença entre quem lê e quem escreve. Alguns falam “Amigo” como se estivessem ausentes, outros falam “colega” como se ninguém mais estivesse presente. Afinal, qual o valor que precisa ser demonstrado, quando palavras não bastam para traduzir a singeleza da mais fugidia das sensações? A experiência das sensações. E não existe catálogo que traduza como cada um sente.

Quote / Pensamento

White paper      Sobre a vida:

Um professor de filosofia sobe à cátedra e, antes de iniciar a aula, tira da pasta uma grande folha branca com uma pequena mancha de tinta no meio. Dirigindo-se aos estudantes, pergunta: “O que vocês estão vendo aqui?”. “Uma mancha de tinta”, respondeu alguém. “Bem”, continua o professor, “assim são os homens: vêem apenas as manchas, até as menores, e não, a grande e maravilhosa folha branca que é a vida.”

Un professore di filosofia sale in cattedra e, prima di iniziare la lezione, toglie dalla cartella un grande foglio bianco con una piccola macchia d’inchiostro nel mezzo. Rivolto agli studenti domanda: “Che cosa vedete qui?”. “Una macchia d’inchiostro”, rispose qualcuno. “Bene”, continua il professore, “cosi sono gli uomini: vedono soltanto le macchie, anche le più piccole, e non il grande e stupendo foglio bianco che è la vita.”

V. Buttafava (escritor italiano, 1918 - 1983), La vita è bella nonostante.

um Sonho de Verdade

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Ela/Ele…

Sonha, e no sonho propõe saber a verdade acerca das “coisas”, e de repente tudo se torna monocromático. Perdem-se as nuances entre os diferentes tons que duas poesias poderiam verdadeiramente contar sobre um mesmo objeto. Ainda criança, que motivação teria a descoberta, se toda resposta pudesse ser encontrada? Sendo adolescente, que conflito atormentaria ou que proveito aprende do amadurecimento que não experimentaria? Adulto, o que traria da infância e da adolescência? Acaso seria então provável que a primeira descoberta, se tudo soubesse acerca da verdade, não seria que nada foi ainda descoberto enquanto não encontra uma “identidade” com este mortal que sonha?

Então já não mais se distingue o sonho da realidade, mas ao menos ainda sonha poder fazer de tudo o que é experiência, um pedaço de prováveis possibilidades. Dos fragmentos que constroem a realidade que se vê, há muito mais do que não se vive. Existem outras perspectivas montando o mesmo panorama, outras lentes voltadas para uma realidade aparentemente semelhante, mas jamais menos interessante. A realidade que pede o uso dos sentidos, na sua capacidade plena.

Onde está o encanto senão na sensação de algo novo que ainda não tem nome, mas que já tem sentido? Onde mora a resposta, senão na vontade de procurá-la para, só então,  acreditá-la? Onde buscar as palavras para o que ainda não foi dito, senão usando as que traduzem um significado sempre diferente? Se não concordamos entre maiores ou menores, que possamos concordar entre melhores ou piores. Não para que disto possamos extrair a verdade das coisas, mas ao menos suas cores.

Ligações Metafísicas

soul

“O corpo conduz a alma no despertar,
a alma conduz o corpo no seu sonhar.”

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