Lembro-me daquelas últimas estações, daquele último ano, daquela última árvore. Daquele último tempo em que o tempo era espontâneo, ou ao menos existia aquela última árvore, que me demonstrava a existência desta espontaneidade do tempo que não mais tenho.
Do seu último inverno, quando com força e resistência, energia e persistência, desafiava os ventos gelados, como um guerreiro solitário e desarmado lutando contra seus vilões de concreto e aço. A mesma estação que justificou seu último adereço de Natal, quando não mais era vista como nasceu, mas escondida atrás do formato que desenhavam as luzes que distorciam sua realidade: Fantasiada.
No renascimento da primavera (a última de Vivaldi) lembro-me das pequenas flores, e da acolhida do último ninho. Do solitário grito distante e abafado que não mais traduzia um canto, mas uma dor. Inerte, insano, embora perfumado. A fragilidade da perfeição ignorada e trocada gratuitamente pela ilusão ignorante. Novas folhas e os últimos suspiros de ar verdadeiramente puro. Lembro-me da mínima rachadura no asfalto distante que a condenou por alcançar as vias de tráfego. Da sua luta para continuar respirando, existindo.
E entregue estive acompanhando seu último verão, quando, pela última vez, pude caminhar em sua direção e tê-la por referência à minha direção. Ler sob sua sombra, abrigar-me da chuva sob seu amparo, saborear seus frutos… Como preservar a memória de um sabor condenado à extinção? Oferecer-lhe de beber e imaginar até onde iriam suas raízes mais profundas. Quantos outros pés pisotearam esta Terra sagrada? E como não pude sentir o seu terremoto?
Outono. Mas o que vejo não são suas folhas caindo ao sabor do vento, este que tão raramente visitara suas frágeis folhas. Tampouco é a mistura de cores que se faz presente colorindo a terra e fornecendo sombra para suas raízes. Jaz apenas o tronco inerte prostrado e esperando mais uma máquina que venha arrancar-lher o restante das raízes deste espectro que resiste em desprender-se de sua própria vida. Interfere nos melhores interesses do presente. O último adorno natural da moldura de minha janela agora é metáfora.
E no noticiário-spam-inter-global diz-se, em todos os canais, que uma gigantesca estátua de plástico biodegradável será construída no topo do mais alto edifício do mundo em sua homenagem, da mesma forma como sempre esteve: invisível aos olhos de todos. Além das nuvens da lembrança.
A última estação
2 Setembro, 2008 por Wilhelm
